Capítulo 6 - Revelação
Acordei assustado e suando. Eu me lembro de ter tido um pesadelo, mas eu não conseguia me lembrar exatamente de como ele era. Olhei para o meu lado e Claire não estava mais ali. Ela sempre acordou antes de mim, já que o seu trabalho começava duas horas antes do meu tínhamos horários de sono diferentes. Me sentei e limpei o suor do meu rosto com minha camiseta que estava jogada no braço do sofá. Os raios do sol penetravam na sala através de uma pequena abertura da cortina, olhei para o corredor e a porta do quarto de Ami e Daisuke estava aberta, porém o cômodo vazio. Cheguei a pensar que não havia ninguém na casa, até que:
- Hideki, venha até a cozinha! - Era o Yuki me chamando. Me levantei ainda sonolento e vesti minha camiseta branca. Parei na porta da cozinha e me encostei no batente, à mesa estavam sentados Ami e ele de frente para mim, respectivamente. No fogão havia uma caneca com água fervendo.
- Onde está Claire? - Perguntei.
- Ela queria ir na casa de uma amiga então a levamos. - Respondeu Ami com um sorriso sem graça, como se isso não fosse importante naquele momento.
- Ontem deixamos um assunto no ar, se lembra? - Daisuke me olhava fixamente enquanto falava, apenas respondi balançando minha cabeça. Me sentei de frente para ambos e bocejei, um pouco sonolento ainda. - Como eu disse antes, isso irá deixá-lo assustado e confuso. - Me alertou ele novamente.
- Você me disse isso ontem, mas eu não...
- Jovem, você sabe realmente quem somos e de onde viemos? - Essa pergunta era um tanto óbvia demais, sorri.
- Ora, vocês são os pais de Claire, minha esposa. E vocês vieram... Vocês vieram... - Eu não sabia de onde eles tinham vindo, e por incrível que pareça eu nunca perguntei nada sobre isso antes.
- Como eu pensei... - Daisuke disse isso e olhou para Ami, que o olhou de volta sorrindo.
- Nós viemos de Sakura. Um lugar bem distante daqui. - Completou ela.
- Bem, Claire nunca me disse e... De onde vocês vieram?!
- Sakura. - Ami respondeu num tom de voz sem vida.
- Eu nunca ouvi falar nessa cidade antes. Onde fica? - Eu estava confuso, assim como me disse Daisuke. Eles se entreolharam e riram como duas crianças, fiquei observando aquilo sem entender absolutamente nada.
- Não é uma cidade. - Me informou ele balançando a cabeça negativamente. Eu franzi minha sobrancelha e fiquei em silêncio, encarando-os.
- Me desculpem, mas aonde vocês querem chegar?
- Nós não somos desse planeta, Hideku-kun. Nós somos de Sakura. - Quando Ami me disse isso eu comecei a rir alto. Tapei minha boca com a mão rapidamente para parar e fiquei corado. Eles me olhavam seriamente enquanto eu passava vergonha. Eu me recompus e cocei minha cabeça, intrigado. Ficamos em silêncio por mais ou menos um minuto, eles não esboçavam nenhum sorriso, nenhum sentimento.
- Vocês... Vocês estão falando sério? Não é nenhuma espécie de pegadinha? - Minhas pernas começavam a ficar moles e minhas mãos trêmulas.
- Não, Hideki. Não estamos. - Confirmara Daisuke. - Nós nem mesmo somos os pais de Claire.
- Espera, quer dizer que...
- Não, nós não sequestramos ela e fugimos para cá. - Ami parecia ter lido meus pensamentos e logo me respondeu. - Fomos mandados pela rainha Hana, mãe biológica dela. Somos guardiões da princesa.
- O que?! - Dei um pulo na cadeira e permaneci estático.
- Nossa missão é protegê-la das mãos de Jigoku. - Disse Daisuke.
- Jigoku é o irmão mais novo de Hana, ele é um Kuro poderoso cujos planos malignos são dominar Sakura. - Continuou Ami.
- Espera, o que é um Kuro? - Eram muitas informações estranhas de uma vez só.
- No nosso planeta existem os Kuros e os Shiros, respectivamente conhecidos aqui na Terra como feiticeiros negros e feiticeiros brancos. - Explicou ela rapidamente. - Porém, Jigoku só poderá comandar Sakura se Claire morrer. - Ela deu uma pausa para que eu pudesse processar as informações, e logo depois continuou. - Na mesma noite em que Hana descobriu as intenções de seu irmão e nos pediu para vir à Terra com sua criança, Jigoku a matou. Agora, para completar seu desejo, basta matar Claire e assumir o poder em Sakura. - Comecei a ligar os fatos e fiquei mais confuso ainda. Eu não acreditava no que estava ouvindo.
- Mas ele não pode simplesmente, agora que não existe mais ninguém comandado o planeta, sentar no trono e governar? Ele não é tão poderoso?
- Não. Quando chegamos aqui em Kamarugo nós fizemos um sacrifício. - Enquanto Daisuke falava, Ami se levantava e voltava a preparar o café.
- Que espécie de sacrifício?
- Um Shiro nos acompanhou na viagem até aqui, e antes de partir nos disse que se quiséssemos que Sakura ficasse em paz até Claire crescer, eliminando seu tio e tornando-se a rainha, era preciso que neutralizássemos os poderes de Jigoku, para que não tivesse força suficiente para tomar posse do trono. Mas isso custaria um preço, a visão da princesa.
- Por que a visão?
- Os Shiros costumam fazer seus serviços benevolentes por um preço. São preços que jamais saberemos o significado. - Daisuke botou sua mão sobre a minha e suspirou. - Meu jovem, a parte em que você fica assustado é agora... - No instante em que disse isso eu engoli seco e enrigeci, sentindo um calafrio correr em minha coluna.
- Existem dois demônios enviados por Jigoku aqui em Kamarugo. Enviados para matar a princesa. - Ami virou e se encostou na pia, cruzando seus braços. - Seus nomes são Kage e Kurayami. - Me arrepiei ao ouvir o nome de ambos. Kage significa "sombra" e Kurayami "escuridão".
- Como eles não a mataram ainda?
- Sua presença os impede. - Yuki deu um largo sorriso.
- A minha? - Perguntei espantado. Por um momento me senti orgulhoso de mim mesmo. Desde que eu a vi pela primeira vez, jurei sempre protegê-la e amá-la, e isso pelo jeito eu estava fazendo muito bem.
- Você é a reencarnação de Tenshi, aquele que nasce quando o universo está em perigo. Aquele que nasce para extinguir as sombras. Você nasceu nesse planeta para proteger uma futura rainha de outro planeta, que por um acaso veio para este. - Eu?! Uma espécie de salvador do universo?! Isso foi o limite. Minha cabeça começou a girar, os batimentos do meu coração aceleraram, meu corpo começava a suar e a única coisa agora que eu conseguia ouvir era um zumbido agudo. Eu não estava mais sentindo meu corpo. Minha visão começara a ficar embaçada, e em seguida preta. Daisuke deu um estalo de dedos que fez com que eu voltasse ao normal imediatamente. - Controle-se, rapaz! - Olhei para ele com raiva.
- Não é fácil ter que ouvir isso tudo! - Suspirei forte, tentando aliviar toda aquela pressão. Me levantei num pulo e comecei a andar de um lado para o outro, me descabelando.
- Acalme-se, Hideki! Parece até uma donzela indefesa!- Ami terminou o preparo do café, aproximou-se de mim e me tomou em seus braços. - Você precisa acabar com esses demônios antes que eles te achem, te matem e acabem com Claire.
- E como EU vou achar eles? - Me soltei dos braços dela e me joguei na cadeira.
- Kage e Kurayami mataram seus pais. - Daisuke se levantou, apanhou uma xícara e depositou o café nela que estava em cima do balcão. Ami mordeu o canto do seu lábio, revirando os olhos, preparando-se para a minha reação,
- O QUÊ?! - Dei um tapa forte sobre a mesa e me levantei em outro pulo. - Como assim eles mataram os meus pais?! Vocês estão loucos?! - O desespero havia tomado conta de mim naquela hora, então quando eu pensei em sair para ir até a casa dos meus pais, Daisuke me puxou pelo braço. Sua força era incrível.
- Hideki! Seus pais foram mortos há 27 anos! - Ele gritava para que eu compreendesse de uma vez. - Kage e Kurayami vieram para a Terra um dia depois de nós. Eles precisavam tomar a forma humana para viver aqui, até chegar o momento certo e eliminar Claire. Para isso acontecer era preciso dois corpos humanos. E foram os dos seus pais. - Ele apertava meus braços com suas mãos. Meu corpo ardia de ódio. Uma lágrima correra pelo meu rosto. - Eles apagaram sua memória dessa noite em que os mataram, e na manhã seguinte, você continuou vivendo acreditando que eles eram os seus progenitores. Porém eles não sabiam, e continuam não sabendo, que você é Tenshi, e que é você que os está impedindo de matar Claire. - Meus olhos ficaram repletos de lágrimas, que logo começaram a sair incontrolavelmente. Daisuke me soltou e eu caí de joelhos no chão. Ami veio até mim e me ajudou a levantar, dando-me um abraço apertado.
- Você precisa exterminar essas bestas, Hideki. Seja forte! - Eu fechei meus olhos e escutei isso somente como um sussurro distante. Ao abrir meus olhos novamente eu estava deitado no sofá da sala, coberto com um lençol azul. Me sentei e joguei o lençol no chão. Passei minhas mãos em meu rosto e sorri, suspirando aliviado. Para mim aquela conversa não passara de um pesadelo. Daisuke, Ami e Claire estavam sentados à mesa da cozinha tomando o café-da-manhã, conversando e rindo.
- Bom dia! - Falei extremamente feliz.
- Bom dia, amor! Está se sentindo bem? - Claire me perguntou sorrindo, seus dentes cintilaram.
- Melhor do que nunca. Apesar deu ter tido um pesadelo estranho essa noite.
- Querido, você desmaiou ontem de manhã e acordou somente agora. Por que isso? Mamãe e papai não me disseram o motivo, mas...
- Como é? - Meu coração palpitou forte e olhei para os dois, que sorriam feito bobos para mim. - Então quer dizer que... - Ami e Daisuke balançaram a cabeça positivamente. Eu não tive pesadelo coisa alguma, como sempre eu somente havia desmaiado, e dessa vez havia sido por um tempo maior.
Passei o resto do meu dia assistindo televisão, que por sinal não havia nada de interessante passando. Mas na verdade eu estava mais perdido em meus pensamentos do que prestando atenção em alguma coisa. Além de existirem dois demônios na casa ao lado, vulgo casa dos meus falecidos pais, eu era responsável pela salvação de Sakura. E droga, Claire e seus "pais" eram extraterrestres. Aquilo que eu vira na cidade, de homens correndo desesperados, era nada mais nada menos do que homens correndo de Kage e Kurayami que estavam atrás de mim, me caçando. Eu comecei a rir baixo sozinho, inconformado com essa loucura toda. E ri ainda mais por estar acreditando nessas coisas.
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contos da Vó Dita,
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