Três dias já haviam se passado depois daquela conversa com Yuki e Ami, apesar dela não ter terminado. Pelo menos não para mim, eu ainda queria fazer algumas perguntas. Dúvidas e mais dúvidas dançavam pela minha cabeça, me perturbando cada vez mais.
Eu e minha mulher logo de manhã decidimos fazer uma caminhada pelo parque da cidade, que ficava no centro dessa. Vestimos roupas leves e preparei a mochila, colocando duas garrafas de água gelada e dois potes que continham três maçãs, sanduíches naturais e torradas com geléia. O lugar era amplo e verde com árvores de todos os tipos e tamanhos, algumas coloridas, outras de um tom de verde mais claro, algumas com cores mortas e até mesmo aquelas sem folha alguma. Em toda sua extensão haviam trilhas feitas de blocos de pedra retangulares com musgo que se interligavam, pessoas de diversas idades passavam por elas todos os dias, principalmente no período da manhã. Elas caminhavam, trotavam, corriam, se exercitavam e na maioria das vezes estavam acompanhadas de seus cachorros. Na parte central do parque estava uma belíssima fonte feita de mármore branco que possuia três andares. No topo dela, no terceiro andar, havia um dragão chinês que ao invés de fogo soltava água pela sua bocarra. Era uma água fresca, cristalina e tranquila que caía silenciosamente para o segundo andar e por fim no primeiro, como uma cascata. Ao redor da fonte as pessoas costumavam se sentar e ler um livro, ficar respirando o ar puro ou qualquer outra coisa agradável, muitas até faziam um piquenique com os amigos e familiares.
Resolvemos parar ali e descansar, já havíamos andado bastante. Abri minha mochila e retirei uma garrafa de água que incrivelmente ainda estava gelada. Dei alguns goles e suspirei aliviado entregando ela para Claire, ela pegou delicadamente e tomou todo o resto que eu deixara, me devolvendo a garrafa vazia.
- Hoje está realmente um dia muito quente! - Comentou ela limpando as gotículas de suor em sua testa.
- É verdade. Se continuar assim podíamos ir para a praia amanhã.
- Eu acho uma ótima ideia! - Disse ela empolgada e com um sorriso grande no rosto. - Me dê uma maçã, por favor.
Ficamos ali sentados por um bom tempo conversando, rindo e nos amando. Por um momento eu me esqueci de todas as coisas estranhas que rodeavam Kamarugo, até que entre as árvores, ao longe, estavam meus pais. Ou melhor. Aqueles dois demônios, Kage e Kurayami, que queriam tirar a vida de Claire. Os olhos flamejantes e raivosos de ambos fitavam a princesa. Um ódio descomunal parecia correr em suas veias, uma sede de sangue incontrolável. Eram bichinhos de estimação de Jigoku e faziam tudo pelo seu mestre. A minha sorte foi que eles não me viram olhando para eles, pois meus olhos denunciariam toda a raiva e o medo que eu estava sentindo.
Num piscar de olhos tudo o que eu via sumira. O parque, Claire, os demônios e as pessoas se transformaram em um nevoeiro cinza que dançou pelo ar em círculos e dirigiu-se para o horizonte, desaparecendo. Restara apenas a escuridão e um ponto brilhante bem longe, como se fosse uma estrela solitária e grande na imensidão. O ponto brilhante estava cada vez mais perto, dobrando de tamanho. Sua luz era tão forte que chegava a machucar minha vista, apesar de me trazer uma sensação boa e diferente. Desviei meu rosto dessa luz, mas do outro lado havia outro ponto brilhante que se aproximava. Agora eram dois, chegou um momento em que tive que fechar meus olhos e os tampar com as mãos.
- Tenshi, abra os olhos e preste atenção. - Uma voz grossa e serena dirigia-se a mim. Primeiro retirei minhas mãos, e vagarosamente abri meus olhos.
Ao olhar o que estava em minha frente dei um pulo e me afastei para trás: era um homem com mais de cinco metros de altura. Sua pele era branca como a neve, os olhos esverdeados lembravam duas grandes esmeraldas, os cabelos compridos e negros caiam nos ombros e costas. Vestia uma armadura de prata brilhante como um diamante e grossa como um tronco de árvore, no peito havia o desenho de uma árvore em rosa claro, que lembrava muito uma cerejeira, em seu quadril estava embainhada uma espada que provavelmente media dois metros e meio. Do lado dele estava uma mulher com a mesma altura, a mais bela de todas as mulheres que já vi. A tonalidade da pele era um pouco mais apagada do que a do primeiro, seus cabelos eram encaracolados e louros, e chegavam até seus tornozelos, os olhos eram azuis como o fundo do mar e sua boca rubra, a qual se destacava. Vestia a mesma armadura prateada com o estranho desenho da cerejeira em rosa claro e em suas costas carregava um imenso arco feito de ouro.
Apesar do brilho forte que emitiam, com a ajuda das armaduras, minha vista parecia estar começando a se acostumar e até a gostar daquilo.
- Quem... O que são vocês? - Perguntei tremendo, me sentindo como se dois leões estivessem prontos para me matar. Os dois se entreolharam e riram.
- Aqui na Terra sou chamada de Ami. - Respondeu a mulher loura, que deu um giro leve e numa fração de segundos se transformou naquela senhora que eu conhecia. Minha sogra.
- E eu de Daisuke. - Respondeu o outro estalando os dedos, e em seu lugar aparecera Yuki.
Meu corpo inteiro se arrepiou, como se uma brisa gelada tivesse feito isso, ao piscar e abrir meus olhos novamente, lá estavam aqueles dois gigantes maravilhosos. Me levantei cuidadosamente e fiquei observando as duas figuras, eu não chegava nem a bater nos joelhos dos dois. Era incrível.
- Nós somos os guardiões da princesa como você já sabe, e estas são as nossas verdadeiras formas.
- Antes que você pergunte, esse vácuo em que estamos é a sua mente. - Informou o guardião. Eu não conseguia dizer mais uma palavra, mas como estavam em minha mente, isso não seria um problema.
- É o lugar mais apropriado para te orientarmos agora. - Começara a guardiã enquanto dava passadas leves e calmas em torno de mim, juntamente com o outro. - Kage e Kurayami tentarão matá-lo neste momento, pois descobriram que a força que os impediu durante anos de eliminar Claire, foi você.
- Manami descobriu que é você o grande protetor e informou à uma bruxa, a qual os demônios invocaram para ajudar na sua caça. Aliás, você já se encontrou com essa bruxa.
- E-eu?!
- Estamos em sua mente, sabemos de tudo o que você passou aqui em Kamarugo desde que chegaram. - Disse a guardiã sorrindo, parando em minha frente. - Você a viu nas ruas da cidade, e até mesmo na casa de Manami. Uma velha horrível vestida de preto.
- Então ela é a bruxa?!
- Sim. Ela não trabalha sozinha também. - Continuou o guardião. - As bruxas provêm de gênios, que são seres inteligentíssimos, elas conseguem persuadir as vítimas até a coisa mais horrível, prometendo trazer em troca tudo àquilo que desejam, mas com um preço.
- Um exemplo disso: Manami-Senpai. - Disse por fim a guardiã com uma expressão tristonha.
- O que ela fez com Manami? O que aconteceu? - Comecei a perguntar nervoso. A guardiã contou-me toda a história, porém não lembro exatamente de suas palavras. Então contarei com as minhas.
Tudo começou dois meses após a sua grande perda. A noite era fria e nevava forte, tão forte que quase era impossível enxergar um palmo diante do nariz. Ela estava sentada em uma poltrona de frente para a lareira em sua sala de estar, com as pernas cobertas por uma manta, segurando uma xícara quente de café. Havia pouco tempo desde que parara de chorar, por isso seus olhos estavam avermelhados e inchados. Sem estar esperando, a campainha de sua casa toca. Num susto coloca a xícara em uma pequena mesa, entre a lareira e a poltrona, e se levanta rapidamente ajeitando o cabelo e indo até a porta principal. Quando a abriu enxergou uma sombra com o formato de uma senhora, pois a neve era muito forte.
- Entre! - Gritou ela fazendo um gesto com a mão. A estranha figura entrara calmamente e permanecera imóvel no meio do hall. Bateu a porta e se virou em direção da pessoa que estava ali parada no meio de sua casa.
- Me desculpe pela inconveniência. - Disse tranquilamente a velha com sua voz rouca. - Me chamo Lyvian.
- O que a senhora deseja? - Perguntou Manami assustada para aquela velha horrível e deformada, vestida em preto até os pés.
- Bem, o que vim oferecer-lhe esta noite é de grande interesse seu. Somente seu e de mais ninguém. - Dizia a velhota, meio que andando e se rastejando até Manami.
- Desculpe, minha senhora. Mas não vou comprar nada. - Atropelou Manami, começando a abrir a porta, porém a velha se pôs na frente de Manami.
- Não estou aqui para lhe vender, mas para lhe conceder. Veja... - A bruxa empurrou Manami lentamente para trás e passou a mão no ar como se estivesse limpando uma janela. Ao fazer isso foi como se tivesse criado uma espécie de tela, onde nela passava algumas memórias de Manami com a sua família. Raiden e ela corriam com os filhos, pelos jardins da floricultura, rindo de alegria. Em outra cena estavam todos sentados à mesa numa ceia maravilhosa de natal, com um banquete suculento, brindando. As memórias passavam enquanto ouvia-se a voz da bruxa de fundo. - Dar-te-ei tudo isto novamente, assim que você ajudar-me finalmente. Basta apenas achar o escolhido, e terás tudo o que tiver me pedido. - Terminou isso, rasgando com suas unhas negras aquelas memórias de Manami que flutuavam no ar. Com essas palavras, a bruxa enfeitiçou a pobre mulher. É assim que essas bestas persuadem as vítimas.
- Se for para ter meus filhos e meu marido de volta, faço o que for preciso. - Dissera isso como se estivesse em transe, com uma voz áspera e sem vida.
- Você terá os seus amados de volta. Só terá um pequeno preço. - A bruxa abriu um sorriso sádico enquanto falava. - Manter minha imortalidade não é fácil... É necessária muita energia... Precisamente falando, necessito de almas, almas jovens... Como a sua, querida.
- Darei o meu corpo e minha alma para você! Tudo o que você quiser! - Gritou Manami se jogando aos pés da senhora. A bruxa jogou sua mão velha e feia para o ar, e isso fez como que Manami voasse para o teto, chocando-se contra o mesmo. A velha retorcia as mãos e as puxava para trás, como se estivesse tentando pegar algo. Ela pronunciava palavras em latim e a cada palavra uma mancha branca e grande saía de dentro do corpo de Manami e entrava no da velhota. A pobre viúva perdia toda a sua beleza e parecia ficar cada vez mais cansada e velha. A bruxa no fim soltou um grito estridente e Manami caiu no chão, de cabelos grisalhos e de pele enrugada. A bruxa não ficou bela e jovem, mas pelo menos uns 100 anos de idade ela perdera. Aparentava agora uma senhora comum de 65 anos.
- Quando terei eles? - Perguntou Manami levantando-se com dificuldade.
- Assim que tudo terminar terá sua recompensa. Agora, você possui poderes sobrenaturais, concedidos por mim para facilitar a sua busca. Te darei o prazo máximo de 10 anos, se não cumprir sua missão até lá... - Riu cinicamente a bruxa, continuando - Levarei você para as profundezas do inferno, aonde sofrerá durante toda a sua eternidade. - Manami se viu em um lago de fogo onde agonizava de dor, já não existia mais pele em seu corpo, somente a carne chamuscada e toda ferida. Mesmo que procurasse a morte, não a encontrava. Estava condenada. Piscou os olhos e se viu novamente em sua casa, mas a bruxa já não estava mais lá.
- Devo ter sonhado. - Suspirou ela aliviada, dirigindo-se de volta para a sua poltrona confortável. Passou em frente a um espelho e resolveu ver como estava. Assustou-se ao ver que estava velha e triste, com rugas por todo o rosto e com o cabelo grisalho.
Foi isso o que a guardiã me contara, mas eu ainda estava com uma pequena dúvida.
- Como ela descobriu que sou eu quem protege Claire?
- Isso não é o mais importante agora. Só posso te dizer que foi no dia em que vocês a visitaram. - Trovejou o guardião.
- Agora, prepare-se para a sua primeira batalha como Tenshi. Entregaremos para você a Caelum, sua espada celestial. - A guardiã disse isso juntando suas mãos grandes e belas com as fortes e grossas do guardião. Uma luz forte e dourada explodiu quando suas mãos se tocaram, seu cabelos esvoaçavam e a luz cada vez mais poderosa. Lentamente foram afastando suas mãos para trás, e naquela luz começara a sair uma espada de ouro, trabalhada com safiras e citrinos. Era maior do que a espada do guardião e também mais larga, a empunhadora parecia o rabo de um cometa. Era magnífica.
- Ela sempre soube de tudo, Tenshi. Ela é a futura rainha de Sakura, que pergunta idiota. - Respondeu a loura rispidamente.
- Pegue-a, é sua. - Ecoou a voz do guardião. Dei alguns passos hesitantes até ela e logo a agarrei. Percebi que minha mão começava a crescer, primeiros meus dedos esticaram, depois ela ficou larga e grande. O mesmo brilho dos guardiões começava a fluir em minha pele. Minhas pernas e meus joelhos doíam como se estivessem se quebrando em mil pedaços, mas eu olhei e vi que elas também estavam mudando de tamanho. E foi assim com todo o resto do meu corpo, enquanto eu gritava.
Minhas costas a principio ardiam, como se tivessem jogado uma caneca de água quente nelas e depois coçava, coçava e coçava. Passei minhas mãos sobre elas e senti dois caroços grandes, um de cado lado. Depois eles foram ficando maiores, maiores e algo começou a sair de dentro deles. Passei a mão naquilo e senti uma textura estranha, como de penas macias. Eram duas asas que estavam nascendo.




