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Capítulo 4 - Pesadelo ou Premonição?

Tudo estava no lugar, a casa estava limpa - apesar de velha - e nada de anormal por enquanto. Andamos um pouco pelo hall, o silêncio era absoluto, nem mesmo nossos passos escutávamos direito. Ela estava um pouco escura e eu não sabia onde estavam os interruptores, então continuei andado cuidadosamente. Claire estava extremamente preocupada, grudada em meu corpo e tremendo feito uma criança de cinco anos assistindo a um filme de horror. Passei um braço em sua cintura e a apertei em meu corpo demonstrando que enquanto eu estivesse por perto, ela estava segura.
- Acalme-se, amor...
Andamos mais um pouco pela casa, até encontrar um corredor com uma porta branca em seu final. Ela estava semi-aberta, e dela saia uma fresta de luz.
- Tem uma porta no final do corredor, a luz de lá está acesa. - Claire apertou meu braço.
- Vamos até lá então... Mas cuidado...
Entramos no corredor e começamos a andar por cima de uma passadeira branca, para abafar mais ainda o som dos nossos passos. As paredes possuiam tons de ferrugem - puxado mais para o vermelho - e era visível que ela estava precisando de uma nova pintura, além de imunda estava descascando. Dezenas de quadros com molduras douradas e alguns artesanatos estranhos a enfeitavam, como se fosse para ofuscar o estado dela, uma tentativa inútil já que o efeito foi o contrário. Ao chegar perto da porta a empurrei devagar, enquanto segurava a cintura de Claire com a outra e ao olhar, percebi que ali era um quarto, provavelmente dos pais dela. Por sorte, o chão era forrado por um carpete extremamente macio, não precisávamos mais nos preocupar com o barulho dos sapatos.
- Onde estamos?
- No quarto dos seus pais. - A soltei e botei minha mão sobre o seu rosto. - Fique aqui, vou dar uma olhada. - Ela se encostou na porta e cruzou os braços. Dentro havia outra porta, esta estava completamente aberta, a luz branca vinha de lá. No chão, bem do lado da cama, um par de chinelos azuis e de pantufas cor-de-rosa. Percebi que a cama estava desarrumada, e um lençol amarelo florido deslizava por ela até tocar o chão, me aproximei e botei minha mão sobre o colchão, estava quente, certamente alguém estava deitado ali havia pouquíssimo tempo.
- Seus pais estão aqui. - Sussurrei.
- Como você sabe, Hideki? - Perguntou ela, suspirando suavemente.
- A cama está toda bagunçada, alguém estava deitado nela.
Meu olhar foi para um pequeno criado-mudo do lado direito da cama com um pequeno porta-retrato preto. Fui até ele com passos curtos e calmos e peguei o retrato em minha mão. Era uma foto de Claire sentada em um balanço feito com pneu, quando ainda era criança. Lembranças começaram a passar pela minha mente, lembranças de uma fase de inocência e aprendizado. Foi nesta fase em que conheci Claire, a fase em que prometi para mim mesmo que sempre a amaria e protegeria.
De repente, um barulho nos chamou a atenção. Um som grave e constante, como se fosse de água chocando-se contra um piso de cerâmica. Coloquei a foto deitada sobre a cama e comecei a seguir este tal barulho, e ao me dar conta, eu já estava dentro de um banheiro - que ficava dentro da tal porta aberta, dentro do quarto -. Eu mal podia enxergar, o vapor d'água me impedia, mas pude ver roupas íntimas de uma mulher jogadas no chão. Saí de lá e fechei a porta, encontrando-me novamente no quarto.
- Sua mãe está no banho, presumo. - Peguei na pequena e fria mão de Claire e a conduzi até a cama, fazendo com que se sentasse.
- Como você sabe que é ela?
- Poxa, fique calma! Quem mais poderia ser? No máximo o seu pai, mas o seu pai não usa camisola, eu acho.
- Idiota. - Ela colocou a mão na boca, tentando esconder a risada que era quase que imperceptível. Andei um pouco pelo quarto e parei em frente a um espelho enorme que havia em frente à cama, do lado da porta. Ajeitei meu cabelo e dei alguns tapas leves em meu rosto, para eu permanecer por mais algum tempo acordado. Bocejei fechando automaticamente meus olhos, levantando meus braços para o alto para esticar meu corpo, ao abri-los novamente vejo pelo espelho Claire ainda sentada na cama - alisando o cabelo -, estiquei um sorriso no canto de meus lábios e a fiquei observando. Ela era perfeita. Parecia até mesmo um anjo de cabelos negros sentada em uma mera cama.
A janela se abriu devagar deixando o vento entrar com força para dentro do quarto, fazendo as cortinas dançarem pelo ar. Claire se assustou e colocou a mão no peito. Em fração de segundos dois seres vestidos de preto saíram debaixo da cama e a agarraram, um ficou sentado em sua barriga enquanto o outro segurava os braços dela, imobilizando-a. Eles usavam uma espécie de máscara branca, feita provavelmente de porcelana. Me virei e pulei sem pensar duas vezes para cima dos dois. Mas um deles percebeu e me empurrou para longe com o braço, arrancando com a outra mão um punhal. Me choquei contra a parede e fiquei jogado no chão. Claire gritava e chorava, debatendo suas pernas. Mas nada eu podia fazer. Eles começaram a rir por eu nem mesmo conseguir proteger o amor da minha vida. Ele ergueu o punhal com as duas mãos para o alto em direção ao peito de Claire, acertando seu coração. O sangue espirrara por toda a parte, e agora, as máscaras brancas estavam tingidas de vermelho. Dei um grito forte e comecei a chorar, foi aí que eu acordei, e percebi que era tudo somente um sonho. Ou melhor. Um pesadelo. Eu ainda estava em frente ao espelho e Claire sentada na cama, cantarolando baixinho. O chuveiro foi desligado e o vapor começou a sair lentamente pela porta, espalhando-se pelo dormitório.
Me aproximei dela arrastando meus pés, eu estava tendo mais uma de minhas tonturas, e logo caí no chão. Pude ouvir ao fundo Claire me chamando, ou melhor, gritando meu nome.
- Claire?! - Era a voz de uma mulher. De uma senhora, melhor dizendo. Eu ainda podia enxergar, porém tudo embaçado, essa mulher estava em frente a porta do banheiro. Então era ela quem estava tomando banho, era a mãe de Claire.
- Mamãe?! - As vozes pareciam estar cada vez se distanciando mais e mais. Até eu desmaiar de vez. A última coisa que eu me lembro de ter visto, foram as duas se aproximando de mim.
Após um tempo indeterminado eu abri meus olhos cuidadosamente, de tanta dor que eu estava sentindo. Eu estava deitado na cama de casal com a cabeça apoiada em dois enormes e macios travesseiros, coberto pelo mesmo lençol amarelo florido ridículo que havia visto. Estiquei meus braços com dificuldade e bocejei, sentando-me na beirada da cama.
- Ele vai ficar bem, querida.
- Eu sei, mãe! Mas não é normal ele desmaiar, não com uma simples tontura. -
Claire e Ami, sua mãe, conversavam da cozinha. Me levantei e praticamente arrastei meus pés até a porta que estava encostada, abrindo-a. Segui até a cozinha e me juntei com as duas, as quais ficaram me encarando estranhamente.
- Você está bem, Hideki? - Me perguntou Ami
- Acho que sim. Só minha cabeça que está doendo um pouco. - Mentira, meu corpo inteiro estava doendo, mas não queria deixá-las mais preocupadas.
- Você me deu um susto! - Claire me abraçou com força, me fazendo gemer de dor, logo me surpreendendo com um toque de lábios. Alisei seu rosto e puxei-o para mais perto, sussurrando: "Você quem me deu um susto". Ela me olhou confusa e sorriu. Ami colocou a mão em meu ombro e me virou em sua direção.
- Agora me dê um abraço rapazinho! - Ela ergueu seus braços e fez um gesto com as mãos para eu abraçá-la. Meio que sem jeito eu a abracei. - Agora me prometa não desmaiar mais feito uma velha reumática! - Enquanto Claire ria, eu não sabia onde me enfiar de vergonha, analisando melhor, foi realmente uma atitude constrangedora, mas... não pude fazer nada para impedir que acontecesse.