Ami estava em frente ao fogão apoiada com as mãos no mesmo enquanto a água fervia na caneca, enquanto Claire e eu trocávamos algumas carícias e palavras românticas. Mesmo entretido com ela, eu não pude deixar de notar o olhar distante e triste de Ami, observando o sol se por entre as montanhas de Kamarugo - os primeiros sinais da escuridão começavam a aparecer - e os pássaros voando pelo céu de volta aos seus ninhos, dando seus últimos cantos do dia. Claire desentrelaçou suas mãos das minhas e repousou sua cabeça em meu ombro, suspirando com um sorriso meigo ainda imóvel em seu rosto. Ami sacudiu a cabeça como que para se livrar dos pensamentos que a deixavam naquele estado e girou o botão do fogão, desligando o fogo que fervia a água para o café.
- Vocês vão passar a noite aqui hoje. - Ordenou ela enquanto pegava uma faca afiada para abrir o saco de café em pó.
- Mas eu prometi para a minha mãe que passaríamos a noite com ela e com meu pai. - Repliquei.
- Ótimo, então Claire ficará comigo e você pode ir para a casa de seus pais. - Claire desencostou sua cabeça de mim e endureceu sua coluna, tentando compreender a mãe. - Afinal, estou morrendo de saudades dela. - Continuou ela abrindo um sorriso alegre e espontâneo que fez todas suas rugas explodirem em seu rosto, como se isso fosse disfarçar o que ela realmente queria. O que nenhum de nós dois sabíamos o que realmente era.
- Tudo bem, mãe. Eu fico com você hoje, ainda quero ver meu pai e Hideki precisa ir daqui a pouco.
- Não. - Interrompi - Eu vou ficar com você, amor. - Passei meu braço em suas costas e olhei para Ami - Vou ligar para os meus pais, acho que eles não vão se importar, vocês são vizinhos mesmo.
- Ótimo, acho melhor assim. - A Sra.Kinoshita terminara de preparar o café e o depositou em uma cafeteira cuidadosa e lentamente. Abriu uma gaveta no balcão e apanhou uma toalha branca, estendendo ela sobre a mesa.
- Onde dormiremos, mãe? Ainda tem o meu quarto aqui?
- Não, meu anjo. O seu quarto virou um depósito de bugigangas do seu pai. - Respondia ela enquanto pegava um pote grande de bolachas doces no armário. - Parece que pegou mania de colecionar tralhas depois de velho. - Revirou os olhos bufando, colocando o pote sobre a mesa.
- Aliás, aonde é que ele está mesmo? - Me intrometi descaradamente no assunto.
- Ele está... Ele está com os amigos. - Ela abriu a sacolinha onde coloquei as cerejas e as despejou em um pote pequeno de vidro, colocando elas na geladeira. - Vocês podem dormir no sofá da sala, é pequeno, mas como está frio não vai ser um problema vocês dormirem apertadinhos. - Percebi que mudou de assunto rapidamente. Ela soltou uma risadinha maliciosa e Claire colocou a mão na testa, suspirando um pouco envergonhada.
- Ai, mãe! Como a senhora é, hein? - As duas começaram a rir juntas e eu me envolvi nessa, mas na verdade eu não estava rindo, estava preocupado.
O véu negro da noite acabara de recair. Ela e eu estávamos deitados em um sofá velho de couro marrom assistindo à um programa de videoclipes - a televisão estava em péssimas condições, por isso eu nem estava prestando muita atenção, o que valia era estar junto de Claire -, cobertos com uma manta bege e confortável. Coloquei minha mão suavemente em sua barriga e puxei-a mais junto do meu corpo, encostando meus lábios em seu cangote. Seus olhos estavam começando a pesar e desliguei a televisão, relaxando meu corpo e grudando meus olhos.
Comecei a pensar em todos os fatos que estavam cercando a cidade. Primeiramente a velhota misteriosa que aparecia e sumia, o que me deixava com muito medo, era como se ela pudesse se teleportar ou entrar em uma espécie de portal dimensional, ou então era apenas um espírito - o que era um pouco comum aqui. Depois Manami, a florista que perdeu toda sua família em um acidente e caiu em depressão psiquiátrica forte, mas parece que isso não foi um problema, pois dias depois parecia estar curada e mais feliz do que o normal. Além disso, a viúva envelhecera precocemente em míseros dez anos, e mesmo estando se demonstrando feliz, estava mergulhada e perdida em uma profunda tristeza e arrependimento.
Claro, os homens da cidade que fugiam como presas de seu predador. Ainda era um mistério para mim, eram muitos. Eram mais ou menos quinze. E um deles havia sido raptado. Acabei decidindo que logo pela manhã, assim que o sol desse as caras eu iria à delegacia da cidade e denunciaria. Providências quanto àquilo deveriam ser tomadas. Não poderia cruzar meus braços e continuar assistindo pessoas sendo perseguidos sabe lá pelo quê.
O interruptor da sala fez um "clique" e a luz se acendeu, penetrando em minhas pálpebras rapidamente, o que fez abrir meus olhos. Levantei apenas meu tronco apoiando minha mão direita no braço do sofá e, com a esquerda, fiz uma concha para proteger os meus olhos da luz, acima das sobrancelhas e, com dificuldade, percebi que a figura que estava em pé ao lado da porta era Daisuke, o senhor da família Kinoshita, o pai de Claire. Meu sogro. Seus olhos fixaram-se nos meus e um sorriso lentamente foi aflorando em sua boca, seus dentes eram brancos como a neve e por isso eu costumava chamá-lo de Yuki, que quer dizer neve. A pele enrugada e o cabelo grisalho não mudaram desde a última vez que o vi. Era um grande amigo meu, talvez, o meu melhor amigo. Por um breve momento seus olhos correram em direção a filha, mas logo voltaram para mim. Estavam arregalados e mais pretos do que nunca, enquanto tirava suas sandálias para entrar em casa. Me ergui mais um pouco tomando cuidado para não incomodar o sono de Claire e me retirei do sofá, ficando em pé em frente do mesmo - esticando o meu corpo discretamente - com minha bermuda azul-marinho de dormir. Somente de bermuda, o que era um tanto que constrangedor. Seus braços se levantaram lentamente e logo sua voz estrondosa ecoou pelo ambiente:
- Meu rapaz! Mas que surpresa! - Me aproximei dele mais um pouco e o abracei, sentindo toda sua positividade correr em meu corpo. Naquele momento, ao sentir toda essa sensação, me perguntei por que eu ficara mais feliz e confortável em me reencontrar com Daisuke do que com meus próprios pais.
- Como você está, Yuki? É bom vê-lo novamente!
- Estou velho demais, meu filho. Para ser sincero já estou fazendo hora extra na Terra. Mas na verdade ainda tenho muito o que fazer, e só vou partir quando tudo estiver no lugar. - Ainda com o sorriso no rosto, sua mão larga, e ao mesmo tempo frágil, repousou em meu ombro. Era bastante bonito e grande para um senhor de setenta e poucos anos. Ele olhou para Claire e sorriu discretamente, dando um suspiro.
- Quando tudo estiver no lugar?
- Sim.
- O que você precisa resolver?
- Bem, meu filho... Isso pode te deixar um pouco assustado, mas eu e a mãe de Claire...
- Daisuke! Você chegou! Estava começando a ficar preocupada! - Ami apareceu na sala interrompendo completamente o que Daisuke dizia.
- Ami, você sabe que meu trabalho é estressante. E olá para você também. - Respondeu ele.
- Mas você não estava com seus amigos? - Mais uma vez me intrometi em assuntos familiares.
- Eu? - Ele olhou para Ami que lhe balançou a cabeça positivamente. Óbvio que era mentira. - Sim... É, eu estava! Estava jogando poker!
- O seu trabalho deve ser estressante mesmo, hein? Você chega a pensar que está trabalhando enquanto se diverte. - Disse isso rindo, fingindo acreditar na mentira descarada dos dois. Ami e ele se entreolharam e sorriram para mim.
- Preciso de um banho quente e relaxante. Se me dão licença, preciso ir. - Disse Daisuke.
- Eu já aqueci a água da banheira, querido.
- Obrigado, Ami. Boa noite, Hideki. - Ele deu meia volta e seguiu pelo corredor em direção ao seu quarto.
- Ele praticamente está a mesma coisa desde a última vez que o vi. - Comentei.
- É verdade, ele é um homem bastante forte.
- Antes de você entrar ele ia me contar algo sobre você e ele, e que poderia me deixar um pouco assustado de início. - Tomei coragem e retomei aquele assunto, eu estava curioso demais. Ela paralisou e fechou sua mão com força, um pouco nervosa.
- Hideki, eu estou cansada. Conversamos sobre isso amanhã, ok? Os três. - Ela sorriu amigavelmente - Boa noite!
- Boa noite, Ami. - Enquanto ela ia para o quarto, eu apagava as luzes e me deitava novamente no sofá com Claire, impaciente.







