Capítulo 2 - A estranha Manami-Senpai
O local era realmente maravilhoso. O campo florido da estradinha tinha continuidade atrás da floricultura e da casa, era uma vista belíssima. E para Claire aquele lugar possuía um perfume incrível. Apertei forte sua mão, entrelaçando-a com a minha e sorri, colocando a outra em meu bolso.
- Aposto que a flor preferida da sua mãe é margarida. – Disse Claire sorrindo – Me lembro de uma vez ela dizendo ao seu pai que as margaridas que ganhara da mãe haviam murchado, e parece que ela estava bem triste com isso.
- Poxa, quer ler minha mão também? – Soltei uma risada e Claire mostrou a língua.
Continuamos andando, a brisa do vento batia em nossos rostos esvoaçando nossos cabelos, como se estivesse nos acariciando.
Abri lentamente a porta de entrada da floricultura, um sininho soou para avisar que algum cliente havia chegado. Avistei Manami atrás de seu balcão, estava ajeitando as flores nas prateleiras e cantarolava uma música típica de nossa cidade. Ela parecia bem pálida e envelhecida, aparentava estar com aproximadamente oitenta anos.
- Manami-Senpai, há quanto tempo! – Disse isso um pouco alto para que ela pudesse me ouvir e sorri. Ela parou por um momento e voltou seu olhar para nós dois. Parecia que não estava acreditando no que estava vendo, deu a volta em seu balcão e estendeu suas mãos, como se quisesse dar um abraço em mim e em Claire.
- Oh, meu Deus! Não acredito como vocês cresceram! Continuam lindos e jovens. - Ela nos abraçou ao mesmo tempo e Claire sorriu, dando-lhe um beijo no rosto.
- A senhora continua aquela mulher com um cheirinho irresistível, Manami! – Elogiou Claire. Manami abaixou sua cabeça um pouco entristecida e logo olhou pela janela o lado de fora.
- Continuo com um “cheirinho irresistível”, mas estou velha desse jeito com apenas cinqüenta e três anos.
Ao Manami dizer sua idade eu me espantei, apertando suavemente a mão de Claire. A pele dela estava caída e enrugada, seus cabelos estavam grisalhos e seus olhos sem brilho algum. Como alguém com cinqüenta e três anos poderia estar nesse estado físico? Isso era praticamente impossível. Claire botou sua mão no rosto de Manami e ficou alisando-o por algum tempo. Claire também percebeu.
- O que trouxeram vocês até aqui, meus jovens? – Perguntou Manami afastando-se e voltando para trás de seu balcão.
- Bem, nós viemos compr...
- Viemos fazer uma visita a nossa querida Manami-Senpai. – Interrompeu-me Claire – Estamos passando nossas férias aqui em Kamarugo.
- As últimas visitas que recebi não foram nada agradáveis, parece que dessa vez será. – Manami pegou uma chave que estava sobre o balcão e sorriu para nós. – Vamos até minha casa, não seria correto receber visitas em uma floricultura velha.
- Tudo bem, obrigada! – Claire estranhamente aceitou o convite, mas eu estava pressentindo que algo de fora do comum estava acontecendo.
Manami abriu a porta dos fundos da floricultura que levava até sua casa. Começamos então a seguir uma pequena trilha que havia no meio de diversas cerejeiras e margaridas, Claire estava simplesmente amando o passeio, enquanto eu estava um pouco confuso.
- Precisamos mesmo ir até a casa de Manami? – Sussurrei para Claire, ela sorriu e balançou a cabeça positivamente.
- Sinto que tem algo acontecendo, ao tocar a pele de Manami eu senti uma profunda tristeza e arrependimento em seu coração, precisamos saber o que é. – Cochichou Claire em meu ouvido.
Claire havia percebido o mesmo que eu. Tentei relaxar um pouco e comecei a observar a paisagem, era realmente lindo, algumas cerejeiras já haviam dado frutos então tive uma pequena idéia.
- Manami, não seria muito incômodo eu lhe pegar emprestado algumas cerejas? – Perguntei com um largo sorriso.
- Ah, meu querido! Como desejar, elas são todas suas! – Permitiu ela.
- O que vai fazer com essas cerejas, Hideki?
- Não vou fazer nada, sua mãe quem vai. – Respondi Claire e logo lhe roubei um selinho.
Colhi então as que estavam mais próximas de mim, mais ou menos umas quinze cerejas, estavam todas vermelhas como uma rubi e pareciam estar saborosas. Manami, enquanto eu colhia, agachou-se e apanhou três margaridas, voltei meus olhos para aquela cena, ela pegou uma fita azul do bolso de sua camisa xadrez e envolveu-a nas três flores, dando um belo laço. Ela se aproximou de Claire e entregou para ela aquelas flores amarradas na fita.
- O que é isso? – Claire sentiu o cheiro das margaridas e sorriu. – Obrigada, Manami!
- Espero que a mãe de Hideki goste – Disse Manami virando-se de costas. – Minha casa é logo ali. – Continuou a andar.
Coloquei minha mão sobre o ombro de Claire e continuamos a seguir Manami um pouco surpresos. Como ela sabia que queríamos as margaridas para entregar à minha mãe? Mais dúvidas surgiram em minha mente, e supostamente na de Claire.
A casa possuia dois andares. Era imensa e tinha como cor principal o branco, havia uma varanda gigantesca na entrada. As janelas possuíam detalhes azul-marinho e dourado, assim como a porta principal. Na varanda uma pequena mesinha e algumas cadeiras, e uma samambaia pendurada na parede, a qual chamava muito a atenção, fora alguns pequenos vasinhos de flores pelo chão. Apenas por curiosidade olhei para cima, e em uma janela eu pude perceber a cortina balançar. A princípio não me importei muito, mas logo me lembrei que ela morava sozinha, afinal, perdera sua família. Talvez fosse minha imaginação, ou talvez tivesse mesmo alguém morando com ela. Mas quem?
- Não reparem a bagunça, não tive tempo de arrumá-la hoje. – Manami passou a chave na fechadura e abriu a porta. Ela sorriu e fez um gesto com sua mão para entrarmos. Enrolei meu braço na cintura de Claire e entrei com passos leves e tranqüilos na casa. A casa estava pesada, alguma coisa estava deixando-a pesada, e obviamente não era algo bom. Manami fechou a porta e colocou a chave em seu bolso da calça, retiramos nossos calçados e deixamos esses do lado da entrada em cima de um tapetinho bege.
O problema é que não tinha como não reparar a bagunça. O hall de entrada era grande, porém os móveis e os quadros estavam desalinhados. Os enfeites estavam espalhados pelo chão e no meio dele havia terra, assim como nas escadas, como se alguém tivesse subido elas com os pés sujos. Descrevi para Claire. Seguimos Manami até a cozinha e nos sentamos enquanto ela preparava um chá verde para tomarmos. A cozinha estava cheia de pó e de teias de aranha, os armários estavam desgastados e o fogão imundo. Não pensei que Manami fosse assim. Talvez não fosse, talvez se tornou assim há pouco tempo. Mas por quê?
- Faz tempo que não preparo um delicioso chá verde. – Comentou Manami. Eu e Claire sorrimos, ainda estávamos de mãos dadas, era uma cena totalmente comum.
- Obrigado, Manami-Senpai, mas estou com a barriga cheia, acho que nem um chazinho teria mais lugar em meu estômago. – Quando disse isso Claire meu deu uma cotovelada discretamente.
- Como você é grosseiro! – Me disse Claire com uma voz firme, um pouco constrangida pelo o que eu acabara de dizer.
- Mas eu...
- Tudo bem, Claire. Só estou fazendo um chá como uma boa anfitriã. – Manami sorriu, entregando a xícara de chá para Claire.
- Obrigada. – Agradeceu ela. Claire deu um gole no chá e colocou a xícara sobre a mesa. Eu estava impaciente, isso era visível, eu estava balançando minha perna como quem estava apertado para ir ao banheiro.
- Algo lhe incomoda, Hideki? – Perguntou-me Manami.
- Preciso ir ao banheiro. - Respondi um pouco tímido. Manami deu um sorriso estranho e seus olhos ficaram completamente pretos, como duas grandes jabuticabas. Se eu saísse dali para saber o que estava acontecendo Claire iria ficar sozinha com Manami na cozinha. Essa não é aquela senhora que eu conhecia há 10 anos, essa não era a Manami-Senpai. Ela sabia que eu percebera isso. Eu estava aterrorizado.
- Suba as escadas e vá até o fim do corredor. – Me informou ela. Logo seus olhos voltaram ao normal.
- Não demore, já está ficando tarde. – Me avisou Claire.
Apenas sorri. Confesso que eu estava um pouco hesitante em subir aquela escadaria cheia de terra e me deparar com alguma coisa lá em cima, sempre fui uma pessoa medrosa. Respirei fundo e coloquei lentamente meu pé no primeiro degrau, ele rangeu um pouco, devia ser uma escada antiga já, assim fui subindo devagar. Finalmente eu cheguei ao topo e o que eu vi foi um corredor escuro, com uma porta semi-aberta, a qual deixava escapar um pequeno feixe de luz.
- Eu não acredito, será que não tem luz esse corredor? – Perguntei baixinho para mim mesmo. Eu realmente estava assustado, a casa da Manami me dava calafrios, e ao dar meu primeiro passo a porta do quarto se fechou devagar, como se alguém tivesse feito isso. Comecei a caminhar pelo corredor até chegar naquela porta, a qual eu pensava ser o banheiro conforme me disse Manami. A cada passo que eu dava em direção a ela, meu corpo ficava mais pesado e minha cabeça girava. Já estava apoiando uma mão na parede para manter o meu equilíbrio. Ao ficar em frente do cômodo, coloquei minha mão na maçaneta da porta, porém a tirei rapidamente com um pequeno gemido por que parecia estar pegando fogo. Cobri minha mão com a camisa e a abri num piscar de olhos. Prefiria nunca ter feito isso. Assim que a abri eu vi que aquele lugar não era um banheiro e sim um quarto, porém ele não estava vazio, havia terra por todos os lados, diversas pegadas pelo chão e marcas de mãos pelas paredes. Acompanhei as pegadas dentro do quarto até uma outra porta, era um closet, e dentro desse haviam seis pessoas. Seis pessoas familiares. Seis pessoas em fase de putrefação. E atrás delas estava a senhora misteriosa que eu vira antes na cidade, sua pele pálida e seus olhos vermelhos me encaravam com ódio e logo aqueles seis zumbis avançaram para cima de mim. Dei um grito e coloquei meu braço em frente ao rosto, pude perceber que nada aconteceu. Assim que abri meus olhos simplesmente não havia ninguém ali, estiquei minha cabeça para ver o quarto e nada. Aliás, ele estava limpo e impecável, não havia terra nem bagunça nenhuma. Me joguei de joelhos no chão e suspirei aliviado, dei alguns tapas no meu rosto e me levantei novamente.
- Hideki! Vamos embora, está tarde e ainda nem fomos visitar sua mãe! – Pude ouvir Claire me gritando lá do hall.
Desci as escadas rapidamente, meu coração estava acelerado. Manami estava olhando para mim um pouco desconfiada e sorriu de lado, ela virou para a porta e tirou a chave de seu bolso, abrindo-a com ela. Ajudei Claire a colocar seus sapatos e depois coloquei os meus.
- Vou acompanhar vocês até lá na frente. – Disse Manami.
- Tudo bem. – Respondi.
Saímos da casa, assim como saiu de mim aquele peso todo, realmente era aquele lugar. Fomos seguindo a mesma trilha em silêncio até a porta dos fundos da floricultura, Manami a abriu e então entramos nela, para assim realmente irmos embora.
- Bem, vou deixar 15 dólares pelas margaridas. – Falei já tirando minha carteira do bolso e pegando o dinheiro.
- 15 dólares, Hideki? Manami foi muito gentil conosco.
- Tudo bem, 25 dólares está bom? – Perguntei a Manami
- Está ótimo, são muito generosos. – Agradeceu ela pegando levemente o dinheiro de minha mão.
- Obrigada, Manami, foi ótimo poder te reencontrar! – Claire abraçou Manami. Ela realmente gostava muito dela, as duas tinham a mesma fascinação por botânica então isso facilitava muito a relação delas. Me despedi apenas com um beijo em seu rosto e sorri.
- Até mais, crianças! Tomem cuidado e aproveitem a viagem. – Manami deu um breve aceno com aquele sorriso lindo que ela tinha.
- Até mais, Manami-Senpai! – Acenei para ela e saímos pela porta. Envolvi meu braço no pescoço de Claire e a acompanhei até nossa BMW 93 prateada, abri a porta para ela e a ajudei entrar. Dei a volta no carro, entrando no mesmo em seguida. Ela percebeu que eu estava meio eufórico.
- Descobriu alguma coisa? – Perguntou-me ela colocando sua mão em minha perna.
- Não descobri nada. Mas eu vi coisas horríveis, não sei o que está acontecendo. – Respondi tirando a chave do carro do meu bolso e ligando-o.
- O que você viu, Hideki? – Perguntou surpresa.
- Eu acho que estou cansado demais.
- O que você viu? - Perguntou ela novamente e com mais firmeza.
- Eu entrei naquele maldito quarto e ele estava coberto de terra. Haviam pegadas no chão que levavam até um closet e lá dentro estavam seis cadáveres e... - Eu não contara para Claire da velha, e algo me disse para eu não contar. Não por enquanto.
- E...?
- Eles pareciam Raiden e os cinco filhos de Manami que morreram, Claire. Eles avançaram pra cima de mim, e quando abri meus olhos de novo eles não estavam mais lá e tudo estava limpo, sem sinal de terra. - Claire ficou em silêncio.
- Manami está estranha. Ela parece arrependida, triste... Eu quero saber o que está acontecendo. Ela não é...
-... A Manami que conhecemos. – Completei a frase dela e dei ré, virando o carro e assim pegando a estradinha. Ao bater meu olho no retrovisor pude ver uma figura vestida de preto em frente à porta da floricultura de Manami, e para meu espanto, era a mesma senhora misteriosa. Eu não estava sonhando acordado, eu tenho certeza disso. Alguma coisa estava acontecendo.
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contos da Vó Dita,
escrita em prática




quero o cap três loooooooogo!/sheeps